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Mulheres só recuperaram 5% da diferença salarial em 23 anos

IN: Jornal i (on-line)
por Filipe Paiva Cardoso e Cláudia Garcia
04 de Março de 2010


Entre 1985 e 2008 o fosso remuneratório entre mulheres e homens mal evoluiu

Zero vírgula 23 pontos percentuais por ano. É a este ritmo que tem diminuído o intervalo entre o rendimento médio de homens e mulheres em Portugal. Se em 1985 a diferença era de 27,1%, agora, mais de duas décadas depois, a diferença ainda supera os 21,6%, revelam dados do Ministério do Trabalho. Os homens em média ganharam em 2008, último ano com dados disponíveis, mais 240,8 euros por mês que as mulheres. São mais de 3370 euros por ano, isto considerando 14 meses de rendimentos.
Esta é uma herança histórica que, apesar dos esforços, ainda é bastante visível na realidade portuguesa. Questionada sobre a persistência deste fosso, a socióloga e professora universitária Maria Filomena Mónica lembra que os homens sempre usufruíram de mais regalias. E por uma razão muito simples: "Têm músculos mais fortes e, infelizmente, a força bruta ainda domina." A socióloga vai mais longe e sublinha que, enquanto professora, repara que a "superioridade feminina", a nível intelectual, nunca foi tão visível como hoje. Ana Drago, deputada do Bloco de Esquerda, alinha no mesmo tom. "Saem cada vez mais mulheres das universidades, as mulheres têm mais formação académica e normalmente tiram melhores notas", comenta.
Mas a realidade não valida a superioridade de que as interlocutoras falam. O rendimento médios do homens portugueses, no final de 2008, foi de 1112,4 euros por mês, contra os 871,6 euros das mulheres, ao longo do mesmo ano. Os dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social mostram uma diferença de 21,65%. Número confirmado pela experiência política de Ana Drago. "Sei de acordos entre sindicatos e patrões em que as mulheres, ocupando o mesmo posto de trabalho e as mesmas funções que os homens, ganham menos 20%", aponta. Só em 2008 é que o diferencial baixou dos 22%.
Outra face desta moeda está nas contratações. As empresas, as administrações de bancos e as multinacionais continuam a dar prioridade a colaboradores masculinos. "Mesmo perante curriculum e experiência iguais, optam por contratar um homem", assume a gerente do Barclays, Cristina Neves.
A licença de maternidade é apontada como uma das principais inimigas da mulher no mercado de trabalho. Alexandra Teté, da Associação Mulheres em Acção, conta que as principais queixas que recebe são contra este tipo de discriminação. "Têm medo de ter filhos", alerta. Pelos meses que vão ficar em casa para amamentar perdem o direito ao prémio e algumas mulheres "vão mesmo para o desemprego". Apesar da diferença nos salários, esta não é a maior preocupação das mulheres em Portugal. Fazer um esforço para conciliar a vida profissional com a familiar e realizar o sonho de ser mãe são as principais preocupações das mulheres, diz Cristina Neves. Sobre as disparidades salariais, até as considera "normais". "Porque as mulheres só se começaram a assumir no mercado de trabalho há dez anos", explica.
Mas a esperança continua longe de morrer. A prazo, as empresas terão de rever as estratégias porque "caçar búfalos deixou de ser uma função" diz Filomena Mónica, que conclui: "As coisas têm mudado, muito lentamente, mas têm mudado". Vão é mudando a zero vírgula 23 pontos percentuais por ano.

05.03.2010

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