FALAR É FAZER.
IN Jornal de Setúbal
Maio de 2008
Abordar o tema da Violência doméstica pelo que se diz e não pelo que se faz pode parecer um absurdo, mas de facto, a falar, podemos fazer muitas coisas e prevenir que algumas coisas sejam feitas. Se acreditarmos que a violência doméstica é, ainda, um problema de costumes e mentalidades, teremos a obrigação, como cidadãos e cidadãs, de fazer os possíveis para construir a mudança, independentemente do papel real que a violência doméstica ocupa nas nossas vidas.
A suposta voz popular diz “Entre marido e mulher, não se mete a colher”. A lei diz o contrário, ao colocar a violência doméstica como crime público. A lei diz “meta a colher”, mas quantos de nós serão capazes de o fazer? Será culpa do ditado popular ou antes da mentalidade que o ditado popular alimenta? Há ainda em nós a lógica de que “dentro de casa” tudo é possível, fora de portas é que a coisa deve ser zelada. Assim se explica a dificuldade de assumir certas palavras, certos gestos que há muito dentro de casa se perpetuam, exactamente com o mesmo silêncio. A própria expressão “violência doméstica” não existia há 50 anos atrás, passando agora a ocupar a agenda política e social. Deu-se-lhe um nome e, apenas com isso, abriu-se um caminho que já não pode ser trilhado de volta. O nome garantiu que se pudesse falar dos actos de forma pública e não de um assunto privado e íntimo, do qual nos absteríamos, como bons vizinhos, filhos, cidadãos/ãs, de comentar. Agora temos obrigação de o comentar, e assim se dá azo a que os números oficiais cresçam todos os anos. E esse crescimento, além de chocar-nos, apela-nos a mexer mais e a não virar costas. Quando um de nós dá a cara, aos olhos públicos, a vergonha deve ser substituída pela coragem.
Às nossas avós, ou até às nossas mães, não foi dada essa expressão “violência doméstica”, mas apenas a frase prosaica “entre marido e mulher…”. Ganhou-se uma arma. Uma arma da linguagem, mas também uma arma social, política – uma arma da justiça.
Como podemos nós então, homens e mulheres supostamente à margem de um problema tão sério da nossa sociedade, fomentar essa mudança? Falando, não desviando os olhos, mostrando aos nossos filhos e filhas o que é a verdadeira intimidade entre “marido e mulher”, calando as vozes “populares” à nossa volta que insistem num determinado padrão de poder, falando mais alto, quebrando o silêncio. Por todo o silêncio perpetuado, cabe a alguém falar.
05.01.2009