Por Todos/as.
In Jornal de Setúbal
Julho de 2008
Durante milhares de anos, a humanidade sobreviveu e evoluiu ancorada em pequenos grupos. O desenvolvimento do nosso instinto gregário facilitou-nos a sobrevivência através do estabelecimento de laços de solidariedade, da divisão de tarefas e do reconhecimento de uma ordem comum. Mas o conceito “nós” desenvolveu-se em oposição ao conceito “eles”, “os outros”. “Eles”, “os outros”, constituíram sempre uma ameaça. Uma ameaça aos “nossos” recursos, uma ameaça às “nossas” mulheres e crianças, uma ameaça ao “nosso” território. Sobretudo, os outros sempre nos ameaçaram simplesmente por serem diferentes, e pelo medo que essa diferença, uma vez aceite, destrua aquilo que os grupos possuem de mais valioso e que os define: o seu património, a sua identidade, a sua cultura.
A progressiva globalização da nossa sociedade trouxe-nos outras pistas de evolução. Estamos cada vez mais próximos/as, “nós” e “eles”. Nunca, como hoje, o conceito de diálogo intercultural foi tão relevante, tão urgente e essencial. Se somos cidadãos/ãs do mundo, esta cidadania global traz-nos novos desafios e responsabilidades. Principalmente, porque esta proximidade acentuou desigualdades e fragilidades que só poderemos combater se estivermos dispostos/as a conhecer e compreender realmente os outros grupos e culturas.
A perspectiva transcultural é essencial em todas as áreas, mas urgente na área social, sobretudo quando abordamos situações traumáticas, como no caso da violência doméstica. Este fenómeno, à semelhança de tantos outros, é culturalmente transversal. No entanto, a forma como é vivido, entendido e reflectido (ou não) para o exterior é substancialmente diferente de cultura para cultura. Para além das barreiras linguísticas, as particularidades culturais, quando ignoradas pelos/as técnicos/as podem, facilmente, comprometer os processos de apoio e encaminhamento de vítimas/agressores, sobretudo ao lidar com comunidades culturais mais fechadas.
Uma vez que esta perspectiva transcultural se encontra, ainda, praticamente ausente da nossa formação como profissionais e cidadãos/ãs, o caminho pode desbravar-se através do estabelecimento de parcerias com representantes/interlocutores de comunidades culturais presentes nos nossos territórios de acção, no sentido de explorar metodologias, respostas e procedimentos que possam adaptar-se às especificidades culturais de cada comunidade. Existem já exemplos de boas práticas nesta área, mas os projectos com abordagem transcultural são ainda em número reduzido no nosso país e, habitualmente, surgem ligados a serviços que lidam directamente com imigrantes e comunidades culturais. Torna-se necessário generalizar esta abordagem e apostar intensivamente na formação.
Vivemos, durante 2008, o Ano Europeu do Diálogo Intercultural. Somos “convidados/as” a reflectir e debater esta temática mas, mais que isso, há que, de uma vez por todas, fazer descer estes novos conceitos à nossa realidade, aprender a viver quotidianamente com a diversidade. Aproveitar as suas enormes potencialidades, aprender a minimizar problemas e danos. Este é o desafio que é urgente agarrar, não por “nós”, não por “eles”, mas por todos/as.
05.01.2009