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Quando o povo diz, ou é ou está para ser.

IN Jornal de Setúbal
Novembro de 2008


Começar com um provérbio para apresentar a campanha, agora nas ruas de Setúbal, de Prevenção da Violência Doméstica, não é um acaso.
Esta campanha, lançada pelo PROJECTO BEM ME QUERO, assenta na subversão de conhecidos provérbios populares. Pegámos numa série de ditados, bastante conhecidos, que se baseiam em ideias que se generalizaram há muito tempo na nossa Cultura e nas nossas vidas, (e que são favoráveis a cenários de violência de género), e transformámo-los para tentar derrubar a mentalidade e o estado de coisas que os criaram. Que mentalidade e estado de coisas são esses? Os que alimentam a cumplicidade do silêncio em situações de conflito, remetendo-as para uma esfera privada na qual não deveremos interferir – Entre marido e mulher, não se mete a colher. Os que incentivam a olhar a mulher como um ser inferior, subserviente ao homem, no plano público, no da educação, no doméstico ou no da sexualidade – Casarás, amansarás. Os que insistem na divisão agressor-vítima e destroem o sentido das relações de respeito mútuo – Quanto mais me bates, mais gosto de ti. E tantos outros, mais ou menos conhecidos, que insistem em ideias feitas, baseadas na legitimidade do abuso e da agressão do homem sobre a mulher.
Todos estes preconceitos, ainda que apenas verbalizados, sempre que repetidos levam à manutenção de um ambiente favorável à violência doméstica. É por isso necessário questionarmo-nos sobre esses padrões, identificando-os, reconhecendo-os e dando-lhes nomes para, em seguida, os quebrarmos. Se não o fizermos, estaremos a alimentar uma herança de violência injustificada e fatal.
Se há algo que o provérbio do título nos diz é que a palavra das pessoas tem força e, aqui, é fundamental mudar as palavras para emendar os actos, derrubando lentamente esse sentimento de que a Violência Doméstica na nossa sociedade é um problema sem solução e sem culpados.
O que propomos nesta campanha é isso mesmo, uma mudança profunda que começa com uma simples alteração de palavras em certas frases. Sem subtilezas, é tempo de todos nos perguntarmos qual é realmente o sentido destas palavras, exigindo a nós e aos outros a sua reformulação.
O poder da mudança, tão falado nos tempos que correm, passa pelo poder das palavras, pelo seu poder em se tornarem actos. Outro provérbio diz-nos que o abuso vem do costume e é sobre esses costumes que queremos que os setubalenses se interroguem, largando a roupagem velha e vestindo novos valores.
Quando o povo diz, ou é ou está para ser. Com a presente campanha, queremos que o “povo” diga estes novos provérbios – “Entre marido e mulher, é tempo de meter a colher”, “Casarás, não amansarás”, “Quanto mais me bates, menos gosto de ti”, “Quem não cala, não consente”, “Roupa suja, se necessário, lava-se na esquadra”. Dizendo-os, vivendo-os, estará para ser uma sociedade mais livre, mais igualitária, mais plena e com menos Violência Doméstica. É tempo de o ser.

05.01.2009

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