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Prendas de Cidadania

IN Jornal de Setúbal
Dezembro de 2008


Prendas de cidadania
Em plena época natalícia, a azáfama instala-se. As ruas ficam cheias de carros e gente, sempre com pressa de chegar ao supermercado, às lojas, aos centros comerciais, aos compromissos festivos. Tudo misturado com o trabalho que, quando o há, não abranda. É uma época de festa, é certo, mas quantos de nós podemos realmente dizer que não é também uma época de stress, de ansiedade, de correria? E, nos últimos dias até ao 24 de Dezembro, tudo se parece intensificar.
Talvez por isso, e a favor de um certo espírito da época, a nossa proposta seja para parar. Parar um pouco, um instante só, antes de voltar a um certo frenesim incontrolável, em que tudo tem de ser feito e em que nada, nem tempo nem dinheiro nem paciência, parece chegar. Parar, diremos nós, para pensar em prendas que não necessitam de embrulho. Prendas para si, para mim, para ela, para ele, para todos e todas nós. Prendas que se podem entregar muito para além da quadra, prendas de cidadania.
Que prendas serão essas afinal? Perguntar-se-ao os leitores: “quem querem eles que ajude agora?” Mas podem esquecer a pergunta, pois todos os nomes que teríamos para dar não cabem em qualquer lista, nem sequer a do Pai Natal. Sossegue-se então o leitor, dizendo que não são donativos que estão em causa, apenas alguma atenção. Atenção àquilo que nos faz ainda viver em sociedade com um sentido de pertença e de justiça.
Pertencer a uma comunidade passa por nos integrarmos e sermos capazes de integrar outros, respeitando as regras de convivência e do respeito, fomentando a capacidade de reconhecer no outro um igual. Alimentar essa noção de comunidade é contribuir para uma prática activa de cidadania, pois passamos a saber que aquilo que fazemos não nos diz respeito somente a nós, mas a todos os quantos podemos estar a influenciar com os nossos actos. Ao longo das nossas vidas, integrámos esse saber colectivo apenas pelo mero respeito pelas regras da vida em sociedade. Sabemos, por exemplo, que um sinal vermelho é para parar, que o lixo é para colocar nos sítios devidos, que as crianças vão à escola, que o Natal é dia 24 de Dezembro, etc. Sabemos as regras mesmo quando as transgredimos, porque sabemos o que é esperado de nós.
Com as prendas de cidadania, o que lhe propomos é que vá um pouco mais longe naquilo que espera de si, no que à sociedade diz respeito. Nomeadamente e por ser esse o objecto do Projecto Bem Me Quero, o que lhe propomos, que ofereça a todos nós, é que não olhe para o lado em situações de Violência Doméstica. De cada vez que o faz ou que o fizer, estará a pactuar com uma sociedade que não é justa, ou equilibrada ou integradora. Estará a contribuir para a fragmentação ainda maior de uma noção de comunidade, pois estará a desresponsabilizar-se de uma violência que nos compromete a todos enquanto grupo, enquanto cidadãos e cidadãs, enquanto pares.
Se o lugar comum nos diz que sozinhos não podemos mudar o mundo, não peça companhia, mas faça o contrário, tentando acompanhar aqueles e, neste caso, maioritariamente aquelas que estão sozinhas numa situação radical de opressão e violência. Poderá talvez ajudar a mudar aquele mundo, contribuindo para melhorar o nosso. Acompanhar neste caso é não calar, é oferecer e procurar ajuda para ultrapassar situações, é olhar para a outra, ou o outro, com o respeito que merece, mostrando-lhe, por que não?, a confiança num caminho diferente. Porque mesmo que sejam apenas dois, juntos serão muitos mais. Aos desejos para 2009, juntamos esse desejo simples de que cada um/a de nós seja capaz de assumir um papel diferente na luta por uma sociedade mais justa e igualitária, mais integradora e menos silenciada. Desejamos não olhar para o lado, mas sim em frente, com liberdade partilhada, acreditando que a mudança faz-se em cada um/a e por cada um/a, para todos/as nós.
Para concluir, desejamos a todos os leitores e leitoras um Feliz Natal e um Bom Ano Novo, cheio de prendas que não precisam ser embrulhadas.

05.01.2009

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