Homens agredidos pelas mulheres têm vergonha social
São ainda poucos os homens que apresentam queixa por violência conjugal
(cerca de 10% das denúncias). A vergonha social fala mais alto do que os
abusos no momento de se assumirem como vítimas das mulheres.
FONTE: Jornal de Noticias 13.10.2008
Embora as razões económicas não sejam tão determinantes na manutenção de uma relação abusiva como acontece com as mulheres, a verdade é que os homens também sofrem a pressão dos mesmos factores e acabam por suportar o
insuportável. Com uma agravante: socialmente é, para um homem, mais difícil
assumir a vitimização, como explicou ao JN uma psicóloga da Associação
Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), a que recorre um número crescente de
homens por crime de violência conjugal (cerca de 10% do total das vítimas).
Não há perfil único da vítima de violência conjugal - tal como não existe um
retrato padronizado do agressor -, mas há algumas características que
indiciam uma maior vulnerabilidade para aceitar maus-tratos, como baixa
auto-estima, fraca confiança e elevada dificuldade em defender os próprios
direitos.
O medo de perder os filhos - usados frequentemente na chantagem emocional
que caracteriza as relações tóxicas, a pressão familiar e social, a
dependência emocional e financeira, bem como as crenças morais e religiosas
sobre o casamento são alguns dos factores que favorecem a perpetuação das
agressões.
A violência conjugal configura um ciclo de três fases: começa por um período
de tensão (discussões), a que se segue o ataque violento (psicológico ou
físico) e depois passa para a chamada "lua de mel", em que o agressor pede
desculpa e promete nunca mais repetir os maus-tratos. Este ciclo tende a
repetir-se, com a lua de mel a tornar-se cada vez curta e as agressões mais
frequentes.
A violência doméstica é um dos crimes que, no ano passado, registou uma
subida mais significativa: 6%, de acordo com o relatório de segurança
interna de 2007. No total, foram reportados à Polícia de Segurança Pública
(PSP) e Guarda Nacional Republicana (GNR) cerca de 22 mil ocorrências de
violência doméstica.
As mulheres continuam a ser a esmagadora maioria das vítimas. Os homens
representam cerca de 15% das pessoas maltratadas no seio familiar. Ou seja,
este número inclui não apenas os que sofreram violência conjugal (perpetrada
pela actual ou ex esposa, companheira ou namorada), mas todos aqueles que
foram alvo de maus-tratos por familiares. Nesta categoria inclui-se um
número crescente de idosos que denunciam situações de violência física e
psicológica por parte dos cuidadores (filhos, netos ou outros parentes).
Estes dados correspondem à percentagem de casos denunciados à APAV: menos de 10% do total de vítimas de violência conjugal, de acordo com os dados de 2007.
26.11.2008